Relacionamentos intrafamiliares e autoestima: o feminicídio evitável.

A morte da mulher é o ápice de muitas violências já cometidas contra ela, começando por violência verbal, psicológica, violência física que vão se repetindo até chegar à morte.

Recentemente tenho visto muitas denúncias e especialmente na mídia, muitos casos de violência contra a mulher e feminicídio.

Entre meus pares de convivência e até mesmo no consultório tenho ouvido a perplexidade das pessoas frente a essas questões e certo choque de que entendemos ter chegado a pontos alarmantes.

Inclusive tenho ouvido muito a seguinte frase: “nossa como o número de violência e morte contra a mulher aumentou” com a qual eu respondo: será mesmo que aumentou ou agora com a rapidez das informações e certo fortalecimento das mulheres para pedir ajuda estamos conseguindo visualizar situações que antes já existiam e eram veladas?

Para vocês terem uma ideia, o corretor ortográfico do computador não reconhece a palavra feminicídio e quando clico para ver se escrevi errado ele sugere: sem sugestões de ortografia.

Então vamos falar sobre isso.

De acordo com as Diretrizes Nacionais para Investigar, Processar e Julgar com Perspectiva de Gênero as Mortes Violentas de Mulheres, feminicídio é uma expressão utilizada para denominar as mortes violentas de mulheres em razão de gênero, ou seja, que tenham sido motivadas por sua “condição” de mulher.

No Código Penal brasileiro, o feminicídio está definido como um crime hediondo, tipificado nos seguintes termos: é o assassinato de uma mulher cometido por razões da condição de sexo feminino, quando o crime envolve violência doméstica e familiar e/ou menosprezo ou discriminação à condição de mulher.

No Brasil, desde 2015 o feminicídio foi definido legalmente como crime, vejamos que é algo muito recente, um ponto para nos atermos porque também é tão recente sua chegada à mídia e à “boca do povo”.

Outro motivo muito alarmante de ser um crime tão velado é que ele pode ser evitado.

Sim, evitado, pois o feminicídio não acontece de uma hora pra outra, é um crime de violência doméstica e familiar, sendo acometido pela força de um homem contra uma mulher (o parentesco pode ser por consanguinidade, afinidade ou adoção).

E a morte da mulher é o ápice de muitas violências já cometidas contra ela, começando por violência verbal, psicológica, violência física que vão se repetindo até chegar à morte.

Um exemplo muito claro e real de feminicídio está retratado na série recém-lançada da Netflix, Coisa Mais Linda.

A série se passa no Brasil dos anos 50 e mostra a história de quatro mulheres e suas lutas, dificuldades, sofrimentos, resistências, conquistas e violências a que foram sujeitas por fazerem escolhas que não eram comuns à época e que ainda são questionadas até hoje.

Algumas questões importantes retratadas na série e que vale o destaque são: a relação da mulher podendo conciliar família e mercado de trabalho, o que antes isso era impossível, inviável e até mesmo proibido.

Os julgamentos pelos quais uma mulher passa quando escolhe ser mãe solteira ou abrir mão de um filho através de um aborto induzido.

E talvez a mais difícil de lidar, a violência doméstica e o feminicídio.

Não quero dar spoiler, mas a série retrata muito bem o que estamos falando e é de extrema urgência nos atentar para essas situações trágicas e reais.

Analisando essas questões tão urgentes, não me sai da cabeça e de minhas observações as relações intrafamiliares.

O abuso de poder do homem, o machismo tão presente, a força que o homem apresenta em sua figura e símbolo de ser homem.

As relações desiguais, os gritos, as imposições, a mulher que não é ouvida e não se faz ouvir.

Por medo e incluímos o medo de apanhar, o medo de ficar sozinha, o medo de não conseguir se sustentar, por não estra fortalecida de si, de suas escolhas, por não ver outras saídas, por muitas vezes ser ameaçada, e por não perceber sua rede de apoio.

E o que podemos fazer para nos salvar?

Para nos libertar de relações que nos aprisionam como se fossemos patrimônio ou um recurso que o outro usa e julga?

Estamos em pleno século XXI, ano de 2019, tanta coisa avançou e tantas outras ainda parecem estar em 1950, sendo assim, precisamos falar muito sobre isso.

Falar através de nossos textos, falar nos grupos sociais, meter a colher, e conscientizar as pessoas.

Para mim ficou claro na série Coisa mais linda a fragilidade e baixa autoestima daquele homem que agride e violenta, e que para se fortalecer e ter seus desejos atendidos precisava violentar sua mulher.

Uma relação fragilizada com seus próprios pais o tornou um homem fraco que testava sua força através da força física.

Mulheres fortaleçam sua autoestima, cuidem-se, amem-se, busquem ajuda, percebam e falem quando algo não estiver bem, pois do contrário, serão subservientes a um homem que te fará menor do que ele mesmo se sente, pois é isso que um homem quando violenta uma mulher precisa, se sentir no controle, se sentir melhor, pois não conseguiu com sua própria trajetória na vida, não alcançou nada que ele considerasse digno ou não curou seus próprios fantasmas e medos.

O feminicídio está inversamente ligado a uma boa autoestima.

Não podemos deixar que as situações cheguem a planos incontroláveis, precisamos nos amar e nos proteger. E percebam os sinais, uma violência fatal poucas vezes não é precedida de outras violências.

Com amor e na certeza de nosso fortalecimento,

Suzane Guedes.

P.S. Alguns dados foram tirados do site: https://dossies.agenciapatriciagalvao.org.br/feminicidio/capitulos/o-que-e-feminicidio/

Leia também: Feminicídio: A Extrema e Desumana Violência Contra a Mulher!

 

Suzane Guedes é Psicóloga (CRP 05/42766), Especialista em Psicologia e Desenvolvimento Humano – UFJF, Arteterapeuta clínica de formação junguiana – POMAR-RJ.

Atua nas cidades do Rio de Janeiro e Três Rios-RJ com atendimento clínico à crianças, jovens e adultos; ministra grupos e oficinas terapêuticas.

Contatos profissionais:

olharparasi@gmail.com

(21) 96819-2668

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