É preciso descolonizar o pensamento

Pensar sobre as particularidades de cada individuo e considerar que cada ser é singular é o que a maioria das abordagens fazem, mas considerar que as demandas sociais perpassam cada sujeito e moldam a subjetividade é um desafio para a psicologia.
Racism - black couple being bullied, people pointing with finger on them

Já falei em outro texto que é preciso começar a descolonizar o pensamento, principalmente dentro da psicologia enquanto pensamos sobre as subjetividades.

Pensar sobre as particularidades de cada individuo e considerar que cada ser é singular é o que a maioria das abordagens fazem, mas considerar que as demandas sociais perpassam cada sujeito e moldam a subjetividade é um desafio para a psicologia.

Tirar o branco da posição de ser “universal” é algo que precisa ser feito. O legado da escravidão deixou para o branco uma herança e um lugar pré-determinado, fazendo com que o mesmo, inconscientemente, considere-se superior e universal.

A psicóloga Lia Vainer usa um exemplo que ilustra muito bem o que quero dizer aqui. Quando vemos um grupo de pessoas brancas reunidas, logo dizemos: um grupo de pessoas.

Mas quando vemos um grupo de pessoas negras reunidas, dizemos: um grupo de negros. Ou seja, racializamos um grupo e universalizamos o outro.

As abordagens teóricas na psicologia são de homens, brancos, europeus.

Quando foram feitas nem era pensado sobre a subjetividade da população negra. É urgente pensarmos sobre as demandas que as pessoas negras trazem para a clínica.

Aqui ressalto que não tenho experiência na clinica, mas falo a partir de relatos de tantas outras psicólogas e diversas leituras.

A psicanálise fala muito bem sobre o sintoma e o que o sintoma quer informar, mas e quando esse sintoma está ligado a questões sociais e não somente individuais? É preciso olhar para além do sintoma e identificar o que está por trás.

Racismo, homofobia, transfobia, misoginia, gordofobia e tantas outras formas de violência causam um terror no individuo, que muitas vezes se sente fraco e impotente diante de tantas agressões.

A psicóloga Maria Lucia diz que o racismo é um terror constante e um “vir a ser” interminável.

O negro ao sair de casa já se prepara para possíveis microagressões.

Uma ida ao shopping pode ser algo traumático, pois o mesmo pode ser perseguido, observado e até mesmo violentado, pelo simples fato de ser negro.

Toda a violência sofrida pelos jovens negros na periferia, a cada 23 minutos um jovem negro é assassinado no Brasil.

O medo das mulheres negras que têm filhos negros de que seus filhos saiam de casa e não voltem. Quais são os efeitos de todos esses terrores na subjetividade negra?

 A própria universidade é um lugar que historicamente foi negada aos negros, e agora que os mesmos estão conseguindo ocupar, chegam e são acompanhados de sofrimentos.

A falta de pertencimento, o não se enxergar nos outros, tanto alunos quanto professores, a diferença de capital cultural, a condição financeira, tudo isso os coloca em um lugar diferenciado do lugar do branco que também está ali.

A formação em psicologia, na maioria das universidades, ainda não aborda sobre as questões raciais.

Geralmente, esse conhecimento só é adquirido após a graduação, em cursos e formações especificas e que na maioria das vezes só são procuradas por psicólogas negras.

Por isso, cada vez mais pessoas negras procuram psicólogas negras para iniciarem a terapia. Isso porque não se sentem confortáveis e livres para expor seus medos sem julgamento com psicólogas brancas.

O psicólogo Lucas Veiga diz que só a escuta ativa não é suficiente, é preciso corpo, vivência, experiência para que ocorra esse encontro e a psicóloga possa acolher e trabalhar o sofrimento de seu paciente.

É preciso descolonizar o pensamento e o inconsciente. Pensar em todas as dimensões que atravessam a vivência de uma pessoa negra. As violências, os traumas, as microagressões, o contexto histórico-social-cultural.

Há diversas produções cientificas, livros e artigos que falam sobre racismo e subjetividade, mas conforme diz Sueli Carneiro há um epistemicidio no Brasil, fazendo com que produções de pessoas negras que falam sobre racismo sejam invisibilizadas.

Porém, não há mais desculpas para não considerar a subjetividade negra alegando falta de materiais para embasar a prática. É preciso pensar além do que vemos nas abordagens criadas por homens, brancos, europeus.

O mundo mudou, a sociedade traz outras demandas e as pessoas são diversas e plurais.

São somente 131 anos de abolição e o pensamento do colonizador ainda é muito presente no Brasil.

Homens-brancos-europeus são considerados donos do saber em questões filosóficas, políticas, econômicas e psicológicas. Seus conhecimentos são os que são usados desde a época da colonização.

Conseguir considerar também os conhecimentos do povo africano é um desafio não só para a psicologia, mas para outras áreas das ciências humanas.

Hoje, nós negros, vivemos em uma diáspora e nosso passado, nossa cultura, nossos traços e tudo que nos liga à África nos foi negado.

Estamos vivendo um processo de desconstrução e reconstrução, estamos no re-conectando com nossa ancestralidade, aprendendo a valorizar nossa cultura, nosso tom de pele, nosso cabelo e  quebrando com a dinâmica do auto-ódio que tanto nos machuca. Aos poucos, estamos descolonizando o pensamento, ainda que seja com pequenos passos, mas estamos.

Leia também: Qual é o papel da psicologia na luta antirracista?

 

Gabriel Basilio tem 21 anos, é estudante de psicologia na FMU e estuda sobre o tema da psicologia e relações raciais desde 2017. É coautor do livro “A mulher negra e suas transições” da Editora Conquista (2019).

Share on facebook
Facebook
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn