Crianças negras e racismo

O racismo no Brasil opera tanto no consciente quanto no inconsciente.

Na graduação em psicologia, uma das primeiras matérias que temos é desenvolvimento infantil.

Aprendemos sobre as fases do desenvolvimento, segundo Freud e outros autores.

Entretanto, quando falamos de crianças negras, em um Brasil racista, e consideramos as opressões que sofrem e o contexto em que estão inseridas, precisamos pensar para além dessas teorias.

Cada vivência é única e singular, mas estamos inseridos em uma sociedade que atravessa de diversas formas nossas vivências e molda nossas subjetividades.

Algumas situações são muito comuns a pessoas negras desde sua infância, são experenciadas de diferentes formas, mas compartilham de certas semelhanças.

O racismo no Brasil opera tanto no consciente quanto no inconsciente.

É estrutural e institucional e considera a raça branca como superior às outras.

O conceito de raça, em um olhar social, atribui valor à moral, à intelectualidade e a estética e determina o branco como norma padrão, ou seja, a criança negra já nasce fora do padrão dominante, em um ambiente que irá oprimi-la de uma forma ou de outra.

Sendo assim, irá se desenvolver sendo observada, julgada e pressionada a seguir aquele padrão pré-estabelecido.

Racismo antes do nascimento

Em muitas famílias, principalmente as inter-raciais, a criança negra já é afetada pelo racismo mesmo antes de nascer.

As idealizações de como será aquela criança transformam-se em questionamentos como: qual será a cor de sua pele? como será o seu cabelo? e seus traços? será como a mãe ou o pai? e seguindo o processo de embranquecimento e a lógica do colorismo, a criança que vir com a pele mais clara e menos traços negros será a mais bela e aceita, e sofrerá menos as consequências do racismo.

O quadro de Modesto Brocos, de 1895, “A redenção de Cam” ilustra perfeitamente esse processo de embranquecimento. A criança negra traz consigo uma herança transgeracional que terá que aprender a lidar em seu processo de desenvolvimento.

Além da raça, precisamos fazer outros recortes como de classe e gênero e, também, considerar toda a desigualdade social presente no Brasil.

Fazendo o recorte de classe, aquela que crescer em uma família de classe mais alta, fora da periferia, terá mais oportunidades, acessos e facilidades, entretanto, não deixará de ser negra, não importando o ambiente em que esteja inserida.

É bem provável que seja a única ou uma das únicas crianças negras em sua sala de aula na escola e em outros ambientes que frequentar, como clubes, restaurantes, museus etc.

E devemos questionar, caso sua identidade negra não seja trabalhada desde cedo e sua autoestima, como essa criança se sentirá nesses ambientes? Como será a questão do pertencimento? Quando irá tornar-se negra?

Sabemos que esse dia chegará, como diz aquele ditado: se não pelo amor, pela dor.

 Já quando falamos daquela que crescer em uma família de classe mais baixa, na periferia, estará inserida em outro contexto com menos oportunidades, acessos e facilidade e com mais pessoas negras ao seu redor, porém, nem sempre cercada de pessoas negras que reconhecem sua negritude.

A classe irá beneficiar uma, mas as duas poderão sofrer diferentes situações de racismo, porque o problema não está só na classe, como muitos dizem, o problema é racial.

Fazendo o recorte de gênero podemos ver alguns exemplos mais comuns que aconteciam, ainda acontecem, mas os tempos estão mudando.

A menina negra e a questão do cabelo, como será essa relação? Ela irá aprender que seu cabelo crespo é bonito desde cedo? Ou ouvirá que seu cabelo é “duro”, “pixaim”, “ruim”? Irá aprender a ser uma “mocinha” e a fazer duas vezes mais que os outros se quiser chegar em seu objetivo.

O menino negro e seu cabelo que será sempre cortado, pois isso o afasta da negritude. Falo da regra e não das exceções. Aprenderá a ser másculo e forte, não podendo demonstrar suas emoções e seguindo a construção da masculinidade tóxica vigente de “homem não chora” (aos poucos também estamos tentando desconstruir esses padrões).

São muitas as particularidades e semelhanças que podemos encontrar na vivência de crianças negras. A fase mais difícil da infância provavelmente será na escola, onde o racismo se manifesta disfarçado de bullying, esse assunto dá outro texto.

Mudança de pensamento

Como a psicologia pode contribuir na luta antirracista para que realidades como essas mudem? Para que crianças negras cresçam com menos sofrimento e se tornem pessoas negras mais autoconfiantes e com uma boa autoestima? Sendo um(a) agente de transformação social, qual a função do(a) psicólogo(a) nessa desconstrução, evolução e mudança de pensamento?

A esperança é que estamos mudando as formas de pensar e cada vez mais descolonizando o pensamento.

Precisamos aprender a nos amar desde cedo, na infância. Amar nossos tons de pele, cabelos e traços, isso fará a revolução.

Confio que daqui há alguns anos esse texto já seja algo muito ultrapassado e que nada do que foi dito aqui será mais praticado. É disso que estamos falando quando falamos sobre afrofuturismo.

 

Gabriel Basilio tem 21 anos, é estudante de psicologia na FMU e estuda sobre o tema da psicologia e relações raciais desde 2017. É coautor do livro “A mulher negra e suas transições” da Editora Conquista (2019).

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