Autoestima na adolescência: uma linha tênue de cuidado

Com a banalização da imagem e busca de comparações com o outro que na verdade não se tem a real dimensão da sua vida, a autoestima do adolescente muitas vezes é descartada ou deixada de lado

Acredito que cada fase da vida exige um tipo de cuidado e atenção. Ser humano neste mundo muitas vezes desumano exige de nós a cada momento um tipo de preocupação e necessidade de superação.

Olhando por este viés da atenção constante sem que isso vire uma patologia ou um excesso de proteção beirando o controle sem reflexão, olho para a adolescência e muitas vezes me preocupo.

Essa fase de transição entre a infância e a vida adulta sempre foi pensada por mim como um momento de delicadas urgências permeado pela ansiedade do existir e de um oposto como um relaxar sem grandes preocupações, quase um descaso com a realidade.

Nessas observações, seja da minha clínica com adolescentes, da observação destas turmas em seus cotidianos ou até mesmo relembrando minhas próprias memórias de vivências nesta fase, me pego tentando entender o quanto é difícil estar neste lugar do adolescer e o quanto cada vez mais, com o advento das redes sociais, está sendo difícil se estabelecer enquanto sujeito de si mesmo com tantas comparações, tantos “youtuber” e afins, vendendo imagens de perfeição ou de uma vida plenamente feliz.

Com a banalização da imagem e busca de comparações com o outro que na verdade não se tem a real dimensão da sua vida, a autoestima do adolescente muitas vezes é descartada ou deixada de lado por tantas referências e referenciais que não são os seus, ou que não são reais.

Os que têm sorte conseguem criar uma autoimagem mais condizente com sua própria realidade e verdade, mas nesta fase que a tendência grupal é tão forte, estar atento para os comportamentos e falas desta meninada é cada vez mais necessário.

A rede virtual vende seu peixe e cabe aos pais e à comunidade que cuida e observa os adolescentes fazerem sua parte também.

A corrente só vai arrebentar para o lado do mais fraco se a rede de apoio não fizer seu papel.

E neste sentido acredito que a família tenha um papel fundamental para resgate e base de uma adolescência mais equilibrada e consistente, mesmo com os conflitos pertinentes a esta fase.

Quando olho para o papel dos pais muitas vezes me deparo com adultos exigindo comportamento e maturidade de seus filhos como se eles fossem adultos também.

Vejo muitas vezes pouca paciência por parte destes pais para entenderem que por mais que os conselhos sejam dados através da palavra, os adolescentes vão viver, e precisam viver suas próprias frustações, medos, inseguranças e arrependimentos.

Então qual seriam o papel e função dos pais?

 Penso sempre que além do diálogo e observação constante, o papel dos pais é nunca faltar com amor.

O amor que os pais podem dar e que muitas vezes é omitido ou por uma dificuldade dos próprios pais em demonstrar e doar seu afeto ou por excesso de controle e rigidez na educação, ou até mesmo por um descuido de seu olhar para seus filhos, leva a uma projeção cada vez maior dessa busca de afeto para outras pessoas.

E daí surge relacionamentos precoces e cheios de decepções, pois o outro nunca vai suprir um lugar ou uma função que os pais deveriam exercer.

O aumento de casos de depressão e suicídio nesta fase é um reflexo da cultura atual, do excesso de imagens e também da negligência desse olhar dos pais para com os filhos adolescentes.

De acordo com dados de 2018 da Organização Mundial de Saúde (OMS), o suicídio já é a segunda principal causa de morte de jovens entre 15 e 29 anos.

Sendo que a maioria dos casos poderia ser evitada com medidas de cuidado e proteção, visto que nem sempre quem comete o suicídio tem uma doença mental grave como depressão ou esquizofrenia.

Muitos são jovens que não estão sabendo lidar com o estresse da vida, com perdas e acabam também desenvolvendo um baixo limiar às frustrações.

Em relação ao papel da comunidade que também cuida e observa os adolescentes no seu dia a dia e são assim também responsável por seu cuidado lembra-me da tão comentada séria produzida pela Netflix baseada na obra literária Os 13 Porquês de Jay Asher, a série do original 13 Reasons Why (2017), onde podemos ver algumas razões para que uma adolescente venha cometer o suicídio.

Dentre algumas razões apontadas na série para o ato do suicídio está a decepção amorosa, o afastamento de uma importante amiga, a sensação de não pertencimento à escola, violência sexual, relação distante com os pais, entre outros.

A série fala de muitos aspectos que devemos observar e que em muitos momentos são negligenciados por fazerem parte da vida, e serem vistos como situações normais ou que simplesmente aquele adolescente deveria “dar conta” daquela situação. E muitas vezes não dão.

Muitas vezes a rede de apoio não está fortalecida, muitas vezes o adolescente não fala o que está acontecendo e vai acumulando uma série de preocupações que levam a uma baixa autoestima, sensações de não merecimento e não pertencimento gerando situações limítrofes e radicais.

Da mesma forma que olhamos com amor e dedicação para um bebê e para uma criança, precisamos exercer cuidados constantes com os adolescentes.

A forma de comunicação será outra, talvez mais difícil, talvez mais áspera e mais distante, mas eles precisam também de cuidados. Precisam de colo e atenção. As cobranças são necessárias, mas não precisam ser radicais. 

E a não cobrança pode ser vista como falta de amor. Podemos ficar com o caminho do meio?

Sem nunca se esquecer de doses de cuidado, atenção, vigília e muito amor. Mesmo que nem sempre este último seja retribuído da forma que gostaríamos.

Com amor e confiança na importância dos cuidados com os adolescentes, Suzane Guedes.

Leia também: Autoestima masculina: resgatando o menino ferido

 

Suzane Guedes é Psicóloga (CRP 05/42766), Especialista em Psicologia e Desenvolvimento Humano – UFJF, Arteterapeuta clínica de formação junguiana – POMAR-RJ.

Atua nas cidades do Rio de Janeiro e Três Rios-RJ com atendimento clínico à crianças, jovens e adultos; ministra grupos e oficinas terapêuticas.

Contatos profissionais:

olharparasi@gmail.com

(21) 96819-2668

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