Autoestima masculina: resgatando o menino ferido

Quantos meninos não são órfãos do afeto dos pais e precisam lidar com uma ferida em sua autoestima, em sua autoimagem e em seu viver?
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Ultimamente tenho refletido e observado os afetos masculinos e pensado também na forma como os meninos-garotos-homens expressam seus sentimentos.

Muitas dessas questões, acredito, estejam aparecendo para mim providencialmente, mesmo que nem sempre conscientemente, por eu estar gerando um bebê. Menino.

Interessantemente, têm surgido aos meus olhos em minha vida pessoal, no lazer e também na minha clínica, mais questões relacionadas ao universo masculino, ao universo dos meninos que um dia se tornarão homens, e aqui falo independentemente da escolha sexual, mas também com questões relacionadas a ela.

Convido vocês a observarem uma cena que vou relatar e que aconteceu recentemente. Alguns personagens da cena serão modificados para a preservação dos envolvidos. Segue:

Eu estava em uma sala de espera para um exame médico importante do meu bebê, era uma clínica para crianças, bebês e gestantes.

Logo, havia na sala pais, mães e responsáveis com suas crianças também. A clínica estava cheia e os exames atrasados, no ambiente havia crianças e bebês, sendo que alguns já irritadiços, natural de tanta espera.

Eu também já estava ansiosa com tanto atraso e espera. Observei um menino que deve ter no máximo oito anos. Ele estava impaciente e com alguns familiares a sua volta.

Pediu ao pai que fossem comer algo, pois ele estava com fome, ao que ouvi uma moça responder: você sempre está com vontade de comer alguma coisa. Depois vim a entender que essa moça era a tia do menino que estava ali para um exame com sua filha de colo.

E o menino estava com o pai que acompanhava também uma filha menina em torno de seus dois anos.

Cena seguinte no mesmo cenário da sala de espera. Este menino que chamava a atenção do pai para fazer algo que não fosse esperar por uma situação que não o envolvia (exames médicos), pediu um abraço do pai, o qual teve como resposta: “você já está grande para isso”.

E o corpo do pai cada vez mais se distanciava do menino usando a filha mais nova como “escudo”, dando cada vez mais colo para a menina e negação de afeto para seu filho. Pausa para respirar.

Esse menino que ainda é uma criança e tem esta irmã mais nova de dois anos, e eu soube depois, que terá mais duas irmãs, pois a mãe está gravida de gêmeos. De mais duas meninas.

Este menino a quem está sendo negado um afeto masculino, um afeto de pai, provavelmente já sentiu as mudanças familiares com a chegada de uma irmã mais nova e com todo o universo “fofo” que muitas vezes o universo rosa está envolvido excluindo seu universo que cada vez precisa ser menos “fofo” e mais racional, e agora terá que mudar novamente seu lugar nesta família com a chegada de mais duas irmãs meninas mais novas.

Provavelmente agora ele é o filho mais velho, homem e que tem que dar o exemplo. E que exemplo este menino está tendo?

Como resgatar a autoestima masculina?

 Fico pensando nas mensagens que os pais querem passar para seus filhos. E aqui falo pai-homem e filho-menino.

Que lugar eles dão a esses meninos?

Quais cobranças e imposições são feitas a partir de suas próprias dificuldades ou questões mal elaboradas?

Quais os medos nessa criação promovem um distanciamento dos meninos de seus próprios afetos e sentimentos?

Outro dia ouvi na clínica: “Eu tive uma conversa com ele de homem para homem” ao que eu respondi: “você deve ter uma conversa com ele de pai para filho.”

As hierarquias podem e devem existir, mas a afetividade não pode ser deixada de lado. Ter autoridade não é ser autoritário. Me entendem?

 Essa cena me remete ao mito de Quíron, o curador ferido. Deus grego fruto de uma traição do pai Saturno (Cronos) com a ninfa Filira, Quíron nasceu centauro, metade homem, metade cavalo e essa sua diferença o fez ser abandonado pelos pais, mas foi adotado pelo deus Apolo que lhe ensinou todos os seus conhecimentos: artes, música, poesia, ética, filosofia, artes divinatórias e profecias, terapias curativas e ciência.

O mito de Quíron tem aspectos muito interessantes do ponto de vista da psicologia analítica, mas quero remeter ao fato do ser diferente e aos abandonos.

Nem sempre o abandono é físico como no caso de Quíron, mas muitas vezes é, e tantas outras vezes presenciamos esse abandono afetivo a meninos tido como diferentes ou àqueles que exigem do pai uma posição e um lugar antes que eles não sabiam ter: o de ser pai de um menino, o de dar afeto a um menino que muitas vezes eles consideram homens.

Quíron teve a sorte e a salvação de um olhar de um pai adotivo mais sensível a suas questões, sim, muitos meninos são adotados por outros pais, mesmo que simbolicamente e conseguem recuperar esse afeto perdido, mas quantos meninos não tem essa oportunidade?

Quantos meninos não são órfãos do afeto dos pais e precisam lidar com uma ferida em sua autoestima, em sua autoimagem e em seu viver? E quantos desdobramentos a ausência do pai, física e afetiva, não pode ter? Milhares.

 E sincronisticamente, assisti poucos dias após essa cena que relatei anteriormente na sala de espera da clínica, o filme Rocketman que conta a trajetória pessoal e profissional do cantor e músico Elton John.

O artista narra sua história a partir de uma terapia em grupo e muitos foram seus desafios pessoais e afetivos apesar do grande desenvolvimento profissional, incluindo fama, dinheiro, muitas drogas e rock and roll. Clássico entre grandes astros do rock.

Porém o que mais me chamou atenção e veio de encontro com esta nossa conversa de hoje foi a ferida imensa que a péssima função e referência paterna (e neste caso materna também) para este menino o levou a caminhos tão distantes do amor-próprio e de suas escolhas pessoais que poderiam ter sido muito mais saudáveis.

Fica claro durante o filme a negação do afeto deste pai para este filho. É-lhe negado diretamente o abraço, o colo, o afeto, o amor. Acredito que esse filme possa ser um bom exercício para nós enquanto pais e mães pensarmos nossa atuação afetiva e os desdobramentos destas ausências. Vale a pena assistir e ampliar a sensibilidade.

E lembram-se da clínica que mencionei anteriormente? Era uma clínica para cuidados cardíacos. Porém nem sempre uma clínica cardíaca resolve os problemas do coração. Não é mesmo?

 Com amor e esperança de que não falte afeto para os meninos, Suzane Guedes.

Leia também: Relacionamentos intrafamiliares e autoestima: o feminicídio evitável.

 

 

Suzane Guedes é Psicóloga (CRP 05/42766), Especialista em Psicologia e Desenvolvimento Humano – UFJF, Arteterapeuta clínica de formação junguiana – POMAR-RJ.

Atua nas cidades do Rio de Janeiro e Três Rios-RJ com atendimento clínico à crianças, jovens e adultos; ministra grupos e oficinas terapêuticas.

Contatos profissionais:

olharparasi@gmail.com

(21) 96819-2668

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