Autoestima e maternidade: existe o ponto de equilíbrio?

É comum perceber o quanto a individualidade da mulher é tomada por um espaço que antes ela não precisava dividir tão integralmente quanto agora.
Afro American Young Mother Taking a Selfie with her Daughter Outdoors . Separated Mother Spending Time with her Daughter . Latin American Sisters Having Fun. Family Concept.

A entrada da mulher na maternidade costuma ser um momento de grande transição e extremas mudanças que pode exigir uma grande doação, entrega, paciência e amor a este novo papel que se inicia.

As grandes funções sociais e pessoais que a mulher executa em sua vida são muitas vezes deixadas de lado ou diminuídas por breves ou longos períodos para esta nova vivência que irá exigir dela uma grande dedicação.

Atualmente estamos ouvindo falar mais de uma forma da maternidade que antes não era tão falada, ou pelo menos, não tanto quanto os tempos atuais. A chamada maternidade real.

Este termo vem sendo debatido junto com o fortalecimento da mulher e do feminismo, e vem expandindo espaços para se falar do lado sombrio da maternidade e não só do lado romântico.

Colocamos aqui este termo sombrio fazendo alusão também ao contexto de sombra definido por Carl Jung como o “lado sombrio” da personalidade e que neste momento apresenta-se através das dificuldades que a maternidade traz para a vida da mulher, as mudanças que nem sempre são fáceis e até mesmo ao novo estilo de vida e abdicações que principalmente a mulher necessita ou escolhe fazer em função deste novo momento como mãe.

Neste sentido é comum perceber o quanto a individualidade da mulher é tomada por um espaço que antes ela não precisava dividir tão integralmente quanto agora.

Muitas são os temas pelos quais a mulher se questiona neste momento, muito são os medos, as preocupações, angústias e responsabilidades. Afinal, agora um outro ser ainda tão frágil depende muito dela.

É interessante e rico observar como cada mulher encara a maternidade e como cada forma de maternar e se entregar a este momento pode afetar diretamente sua autoestima.

Porém mesmo com nuances diferentes na forma de ser mãe, é notório observar um sentimento latente e real que aos poucos pode ser desconstruído, as culpa. 

Afinal como diz a velha frase popular, nasce uma mãe, nasce uma culpa. E com a culpa, nascem inseguranças e enfraquecimento da autoestima.

Dentro do processo psicoterapêutico e arteterapêutico procuro sempre ajudar transformando a culpa em responsabilidade.

Afinal, culpas são pesos desnecessários que não trazem nenhuma transformação pessoal, já o olhar direcionado para a responsabilidade diante de cada ato pode trazer soluções mais práticas, diretivas e funcionais para aquela mulher que agora é mãe.

Este processo de culpa e consequentemente diminuição da autoestima que observo na questão da mulher com sua maternidade pode se estender por toda uma vida quando essas questões não são pensadas e cuidadas.

Infelizmente as culpas se transformam ao longo dos anos e é preciso uma autoanálise frequente, assim como autocuidados de amor-próprio e autorrespeito para que essa mãe não se torne refém de suas ações, pensamentos e sentimentos.

Sentir culpa pode ser um caminho natural e inconsciente para as ações de uma mãe que deseja o melhor para o seu filho ou que pensa sobre suas ações serem diretamente responsáveis também pelo desenvolvimento de outro ser, porém não se educa um filho sozinha, existem muitas outras relações que estão diretamente e indiretamente correlacionadas com a personalidade de um indivíduo, e dividir a responsabilidade também é uma grande saída de maturidade e autoestima para a mulher-mãe.

E como diz o sábio provérbio africano É preciso uma aldeia inteira para se educar uma criança.

Há um conceito muito falado dentro da psicologia que acredito caber neste nosso diálogo, é o termo da mãe suficientemente boa. Essa ideia foi desenvolvida pelo pediatra e psicanalista Donald Winnicott.

Sua teoria sugere que quando a mãe tenta ser perfeita acaba sofrendo mais do que deveria, pois suas expectativas acabam sendo frustradas. Assim, o caminho do meio, buscando ser boa e não perfeita cabe melhor dentro de uma vida real e não imaginária.

O tempo de cada mãe para se tornar suficiente boa para aquele filho é singular e cada uma só consegue encontrar através de sua própria experiência.

É natural e cabível muitos questionamentos dentro da maternidade, mas também é possível uma relação saudável da mulher consigo mesma podendo executar outros papéis que a colocarão em posição de satisfação e realização pessoal que são encontradas não só na maternidade, e que é totalmente cabível e auxilia no próprio processo de tornar-se mãe e de maternar.

No divertido filme brasileiro estrelado pelo ator Paulo Gustavo, Minha mãe é uma peça, podemos ver um estereótipo através do humor, de uma mãe que se dedicou uma vida inteira aos filhos e que em um momento da vida os vê crescendo, ganhando asas e ela se percebe como abandonada pelos mesmos, porém reflete também o quanto de dedicação e vivência não colocou em cima da educação deles, principalmente após a saída do marido de casa, deixando de lado uma busca por sua vida profissional e pessoal.

Buscar realocar a energia pessoal para outras funções para além da maternidade faz bem não só para aquele filho que não leva toda a carga de responsabilidade e de energia da mãe, mas também para essa mãe que existe como mulher antes mesmo de seu desejo e vivência neste importante papel como mãe.

Equilibrar os pontos para uma psique saudável e uma boa autoestima desta mulher-mãe pode ser difícil num primeiro momento, mas é necessário e salutar. Afinal, evita-se assim depositar sua própria responsabilidade neste papel que escolheu, não precisando utilizar o papel de vítima em frases tão ouvidas como “eu fiz tudo por você”.

Talvez o ponto de equilíbrio seja não fazer tudo pelo outro, mas fazer também o suficiente para si mesmo, para os dois, para as relações.

Com amor, Suzane Guedes.

Leia também: Relacionamentos intrafamiliares e autoestima: o feminicídio evitável.

Suzane Guedes é Psicóloga (CRP 05/42766), Especialista em Psicologia e Desenvolvimento Humano – UFJF, Arteterapeuta clínica de formação junguiana – POMAR-RJ.

Atua nas cidades do Rio de Janeiro e Três Rios-RJ com atendimento clínico à crianças, jovens e adultos; ministra grupos e oficinas terapêuticas.

Contatos profissionais:

olharparasi@gmail.com

(21) 96819-2668

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