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As Crônicas de Nárnia

O Medo em As Crônicas de Nárnia: Uma Breve Análise

Tempo estimado de leitura: 6 minutos

O Medo em As Crônicas de Nárnia: Uma Breve Análise

As Crônicas de Nárnia

Para derrotar as trevas,

vocês devem, primeiramente,

derrotar as trevas dentro de vocês.

(As Crônicas de Nárnia – A Viagem do Peregrino da Alvorada) 

Os contos de fadas são enredos vivenciais, isto é, eles originaram-se de sonhos, conversas e do imaginário do povo.

Por isso, abarcam temas universais e que todos nós vivenciamos ou iremos vivenciar em algum momento.

Aqui na coluna, procuro sempre colocar o meu olhar, parte da minha vivência tanto pessoal quanto coletiva com os contos.

Às vezes, coloco-me mais ativa no texto, outras vezes não. As Crônicas de Nárnia

E no artigo desta quinzena isso não será diferente.

Na última semana senti dentro de mim a necessidade de rever os três filmes já lançados pela Walt Disney da série “As Crônicas de Nárnia”.

É curioso como essas vontades/necessidades brotam dentro de nós.

Sempre estou relendo algum conto ou revendo algum filme e/ou desenho adaptado dessas histórias.

E toda vez tenho uma percepção, um insight, uma reflexão nova.

O autor dessas aventuras em Nárnia é C.S. Lewis, talvez você o conheça também por essa seguinte frase:

“Um dia você terá idade suficiente para ler contos de fadas novamente”.

Lewis tinha toda a razão! As Crônicas de Nárnia

Os contos de fadas, como já mencionei em outros momentos aqui na coluna e no primeiro parágrafo deste artigo, trazem em sua essência temas universais e o medo é um deles.

Em As Crônicas de Nárnia nos deparamos não somente com o medo, mas com a coragem, com o novo, com o bem x o mal, com o amor (fraterno e entre amigos), com o “abrir mão”, com a redenção, entre muitos outros temas.

Recomendo que leia também: Herói x Vilão: As Máscaras Dos Contos de Fadas

Por isso, farei hoje, uma análise breve somente da temática do medo presente nesse enredo.

Vale ressaltar, que essas histórias são ricas em detalhes e profundidade, merecendo, futuramente, uma interpretação mais completa.

Talvez o primeiro medo que encontramos nesse conto é o medo da separação da mãe.

Os quatros irmãos, Pedro, Susana, Edmundo e Lúcia, por causa dos bombardeios da Segunda Guerra Mundial, são obrigados a ir para uma cidade pequena na Inglaterra.

Lá, a caçula Lúcia encontra um guarda-roupa mágico que a leva para Nárnia.

Seus irmãos, a princípio, não acreditam nela, ou seja, podemos considerar essa descrença como sendo mais um medo a ser superado.

As Crônicas de Nárnia

É como se dissessem para si mesmos: “Já somos grandes demais para acreditar em faz de conta”.

Até que, em um dado momento, eles precisam acreditar e, acima de tudo, se permitir se aventurar pelas terras de Nárnia.

Na jornada por esse reino mágico eles se deparam com obstáculos, desafios, “vilões” e batalhas.

Os irmãos têm que, cada um a sua maneira, superar seus medos tanto internos como externos.

Com isso, eles acabam entrando em conflito entre eles mesmos. As Crônicas de Nárnia

Pedro, por ser o mais velho, quer proteger os mais novos e se sacrificar por eles;

Susana é mais temerosa, chegando até mesmo a exercer um papel mais maternal, sempre relembrando o que a mãe iria ou não dizer;

Edmundo luta para conquistar o seu espaço e ser de fato “enxergado” por seus irmãos, em especial, Pedro, como se esperasse a aprovação dele;

Lúcia, a caçula, é muito sensata para a sua idade e a que tem mais fé, qualidade rara e essencial para todo o tempo em que estão em Nárnia.

Lá eles descobrem que sãos os Reis e Rainhas há muito tempo aguardados pelo povo para poder derrotar a Feiticeira Branca.

Ela, por cem anos, está reinando em Nárnia, decretando nesse período um inverno rigoroso.

É interessante que eles, como Reis e Rainhas, formam uma quaternidade, compreendida por Jung como um símbolo da totalidade (Si-mesmo).

Ou seja, eles chegam ao reino para restabelecer a paz, a totalidade há muito tempo perdida.

Para derrotar a Feiticeira eles precisam encontrar Aslam, o Leão filho do Imperador de Além Mar.

Aslam tem papel fundamental nos três filmes (O Leão, a Feiticeira e o Guarda-roupa; Príncipe Caspian; e A viagem do Peregrino da Alvorada).

Aslam é muito semelhante ao personagem Mestre dos Magos do desenho A Caverna do Dragão, o qual aparece em momentos cruciais e sempre tem algo a dizer, por mais que, inicialmente, sua fala pareça confusa e repleta de charadas.

Aslam ainda lembra muito o Leão do conto O Mágico de Oz, ambos têm a coragem, essencial para qualquer herói e heroína.

Claro que, o Leão de Oz, almeja a coragem, pois se julga medroso, até que ao encontrar o Mágico de Oz, ele se dá conta que a coragem sempre existiu em seu interior.

Outro momento importante onde a coragem é presente e bastante significativa, é quando no filme, Príncipe Caspian, Lúcia (re)encontra Aslam e diz que gostaria de ser corajosa como ele.

Ao passo que o filho do Imperador responde que se ela fosse mais corajosa, seria então um Leão. 

As Crônicas de Nárnia Ou seja, a coragem é o oposto do medo.

Em As Crônicas de Nárnia a coragem espera o momento certo para aparecer!
Em As Crônicas de Nárnia a coragem espera o momento certo para aparecer!

No começo de cada aventura em Nárnia é o medo que se sobressai, mas, pouco a pouco, ele é confrontado e vai se complementando e integrando com a coragem que sempre esteve ali, apenas estava esperando o momento certo para despertar.

No segundo filme, ainda é possível observar o medo que Pedro tem, inicialmente, em perder o seu poder para o Príncipe Caspian.

Contudo, à medida que a trama desenrola-se os dois percebem que só será possível vencer e derrotar os Telmarinos se trabalharem juntos.

Pedro ainda teme morrer na luta com o Rei Miraz, procurando redimir-se com seu irmão Edmundo pelas vezes em que não o valorizou como realmente deveria.

Ao fim dessa aventura, Nárnia passa a ser governada por Caspian, e os quatro irmãos retornam para o “mundo real”.

Entretanto, esta fora a última viagem de Pedro e Susana.

Segundo Aslam, eles já aprenderam o que tinham que aprender nesse reino, e somente Edmundo e Lúcia retornarão.   

O retorno dos irmãos caçulas acontece em A viagem do Peregrino da Alvorada e novamente o medo está presente.

Lúcia teme não ser tão bonita como a irmã mais velha, Susana, já Edmundo entra em conflito com Caspian, por motivos semelhantes ao de Pedro no filme anterior.

Para descobrir o que aconteceu aos sete fidalgos enviados por Miraz para desbravar o oceano oriental, os heróis têm que lidar com seus receios e adentrar a locais perigosos.

Um destes é a Ilha Negra, na qual qualquer medo pode se tornar realidade.

Antes de chegarem à Ilha o feiticeiro Coriakin, o qual encontram em uma de suas paradas, diz que até que eles realizem a tarefa final (colocar as sete espadas sobre à mesa de Aslam), o mal estará em vantagem, por isso devem tomar cuidado.

Complementando que todos serão testados e que para combater as trevas eles precisam, primeiramente, combater as trevas dentro de si.

James Hillman (1984, p.12), autor pós-junguiano, ao se referir ao trabalho clínico, menciona que o mesmo “[…] começa com o encontro humano. […] Se este é o começo de todo o nosso trabalho, vamos então iniciar pela tentativa de lançar alguma luz sobre as áreas de escuridão […]”.

Melhor dizendo, para combater as trevas, a sombra, é necessário o seu oposto, a luz.

Os personagens, assim como nós mesmos em nosso dia a dia, só poderemos combater a sombra, o medo, nossos receios e temores, com os seus opostos, o lado positivo de cada um desses aspectos.

Talvez, após (re)descobrir qual a solução para os nossos medos é que a jornada chegará ao fim.

Como aconteceu com Pedro e Susana e depois com Edmundo e Lúcia.

Após terem aprendido tudo que precisavam em Nárnia, regressaram para o mundo real, no qual novas aventuras ainda estão por vir. 

Um beijo e uma (re)descoberta,

Juliana.

julianaJuliana Ruda – Psicóloga de Orientação Junguiana (CRP 08/18575).

Tem Especialização em Psicologia Analítica.

Atua na área clínica atendendo jovens e adultos.

Ministra cursos, palestras, workshops e grupos de estudos com temas relacionados à Psicologia, Psicologia Junguiana e Contos de Fadas.

É uma das colaboradoras da Comissão Temática de Psicologia Clínica do Conselho Regional de Psicologia do Paraná.

Além de eterna aventureira dos Contos de Fadas!

Contatos – E-mail: psicologa.julianaruda@gmail.com 

Facebook: https://www.facebook.com/PsicologaJulianaRuda/

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