A pessoa com deficiência Intelectual, pode vivenciar sua sexualidade?

Em algumas famílias a sexualidade se apresenta como tabu, e comparando com as famílias em que tenham pessoas com deficiência isso se torna ainda mais difícil de abordar

Quando falamos sobre sexualidade quase que imediatamente o tema é associado ao ato sexual propriamente dito, porém esse tema abrange um campo muito maior onde o ato sexual é apenas um aspecto da vivência.

Falar sobre sexualidade já causa desconforto em muitas pessoas, ainda que haja uma gama de informações divulgadas e há possibilidade de discussão sobre isso em casa, na escola, na internet.

Em algumas famílias a sexualidade se apresenta como tabu, e comparando com as famílias em que tenham pessoas com deficiência isso se torna ainda mais difícil de abordar, pois ainda acredita-se no mito de que a pessoa com deficiência não vivência sua sexualidade por inúmeros motivos: ver a pessoa com deficiência intelectual como “eterna criança”, um ser angelical e por isso assexuado, ou incapaz de tomar decisões coerentes e seguras, entre outras razões particulares a cada núcleo familiar e nessas condições não se discute ou esclarece o assunto.

O que é importante perceber que falar de sexualidade significa falar sobre a descoberta do próprio corpo, aprender sobre afetividade, consentimento, atração por outra pessoa, envolve emoções, mudanças hormonais, e não apenas o ato sexual em si.

Quando pensamos sob essa perspectiva podemos ampliar e entender que é completamente possível que a pessoa com Deficiência Intelectual vivencie sua sexualidade, pois as limitações se dão no campo cognitivo e não físico, ou seja, o corpo vai passar pelas mudanças da puberdade assim como em uma pessoa sem deficiência, a menina vai menstruar e produzir os hormônios femininos, terá sua libido aumentada, curiosidade e interesse pelo prazer e assim como os meninos também produzirão hormônios e terão ereções involuntárias e interesse pelo prazer.

É muito comum a queixa de familiares sobre o comportamento de seus filhos como sendo: sem pudor, ou que expõe seu corpo em público, toca as pessoas sem permissão, dificultando assim a inclusão social, pois a cada episódio desse diminui-se a saída e participação na comunidade.

E quando é perguntado se já foi dito ou explicado ao adolescente (em alguns casos adulto) sobre sexualidade a resposta é quase unanime: “eu não, nunca falo dessas coisas não, ele faz mas não entende o que tá fazendo, só mando ele parar, mas ele não para”, dessa forma realmente os comportamentos não trabalhados vão sendo cristalizados e mais difíceis, porém não impossíveis, de se reverter.

Em casos de deficiência moderados a leves, é possível abordar a vivência da sexualidade de maneira prática, por exemplo, mostrar a importância do consentimento, ninguém toca o outro sem que este permita, isso inclui abraços e beijos, permitir que haja privacidade em algum cômodo da casa (banheiro ou quarto), para que quando se perceba algum comportamento inadequado ou a necessidade da masturbação oriente onde  pode ir para ficar a vontade e que as pessoas não podem ter acesso à sua intimidade, oriente e acompanhe enquanto for necessário o uso de absorvente, o que significa a menstruação e os riscos de gravidez.

É sabido que a limitação cognitiva altera o ritmo de aprendizado, então, não basta dizer uma vez (como seria com a pessoa sem deficiência), é um trabalho constante até que se torne hábito.

E ao contrário do que se costuma pensar, falar sobre sexualidade não incentiva o ato sexual, pelo contrário, tiram-se dúvidas de maneira saudável e se esclarece que esse é o processo natural do corpo.

Previne os possíveis abusos, pois a Deficiência Intelectual, quando não associada a alguma síndrome que tem características físicas comuns (como a síndrome de down) não é perceptível, e se em grau leve, com pouca orientação sobre a sexualidade a pessoa pode estar vulnerável e não se dar conta de que está sofrendo uma violência.

Perceber essas mudanças e orientá-las é de suma importância, contudo há que se respeitar o grau de comprometimento de cada pessoa, em determinados casos em que a orientação não é uma opção, pois é um quadro severo, a intervenção medicamentosa pode ser uma saída diminuindo a produção hormonal, porém isso deve ser avaliado por uma equipe multidisciplinar, avaliando os prós e contras, levando em consideração sempre o bem estar da pessoa com deficiência.

Para melhor exemplificar que a sexualidade da pessoa com deficiência intelectual pode ser vivida em sua plenitude, e sim, até o ato sexual de fato, deixo o depoimento de um casal com Síndrome de Down, dado a um site que promove a discussão e promoção da inclusão social das pessoas com deficiência, segue o relato:

 “O casamento para mim representa duas pessoas que se amam muito e que tem respeito um pelo outro. Não é só amor, sexo e cama. Um casal tem que ceder em algumas coisas. Dar carinho, amor, afeto e compreensão. No casamento não deve ter brigas e nem discussão. Tem que ter é paz, harmonia e amor. Quando eu estava entrando com meu pai para casar e vi o Ariel lá na frente de terno cinza muito lindo eu senti muita emoção, porque daquele momento em diante eu ia ficar para sempre com o homem que eu amo”, conta Rita de Cássia N. Pokk, 36 anos que em 2003, casou-se com Ariel J. Goldenberg, 36 anos, também com deficiência intelectual .

“Quando eu vi a Rita entrar vestida de noiva de braço dado com o pai dela eu me emocionei tanto, que derramei algumas lágrimas. Agradeci a Deus, pois o meu grande sonho estava se realizando, eu ia casar com a mulher que eu amo”, confessa Ariel, que  sempre diz que todas as pessoas com síndrome de Down têm direito de sonhar, trabalhar, casar, e se desejarem, morarem sozinhos depois de casados.

Claro, que é preciso entender todos os contextos e respeitar os valores e maneiras de perceber a vida de cada família, porém também é preciso mostrar experiências positivas a fim de apontar as possibilidades de uma vivência plena e inclusiva.

Até o próximo artigo, abraços!

Leia também: Deficiência Intelectual e Transtorno de Aprendizagem são a mesma coisa?

Priscila Conceição Souza Martins Psicológa – (CRP 06/108485) com pós-graduação em Psicopedagogia Clínica e Institucional,  atua na abordagem psicanalítica, possui ampla experiência no atendimento clínico à adolescentes e adultos, promovendo autoconhecimento e saúde emocional. Atua no processo de inclusão social da pessoa com deficiência Intelectual e/ou Múltiplas, sendo com a orientação familiar ou para profissionais da educação: desmistificando os estigmas e preconceitos, auxiliando no manejo com o indivíduo em questão, trabalhando na construção do empoderamento da pessoa com deficiência e sua família.

Contatos:

Whatsapp: (11) 96557-4895

E-mail: priscila-csm2011@hotmail.com

Facebook: Convivendo com a Deficiência Intelectual-Psicóloga Priscila Martins

Instagram: @psi.priscilamartins

Atendimento Presencial: Rua Padre Estevão Pernet, 160 sala 705 – Tatuapé.

 

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